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Coluna 8L 10/2026 - Sim, a política deveria parar a sua vida

15 de out.
4 min de leitura

A política não vai pedir sua permissão para mudar as leis se você ignorá-la. Nossos direitos e obrigações não vão te avisar seu novo rosto se você não escolhê-lo. O mundo muda o tempo todo, está mudando agora mesmo. E escolher não se informar ou não se posicionar não te torna alheio ou à parte das mudanças. Te torna conivente com o que der e vier.

Às vezes parece que a maioria de nós fica por uns quatro anos suspensa, numa bolha de ar, apenas conversas superficiais, discordamos mas isso não importa, somos amigos, vamos resolver até amanhã. E então, boom! Vem o baque. Os dias no trabalho ficam mais longos e mais tensos porque você não sabe quem votou em quem. Na rua alguém te fecha no trânsito e você tenta brincar com si mesmo sobre em quem foi aquele voto. No jantar você evita algumas conversas e se elas vierem, você se assusta.

Bem vindo a um Brasil que se lembrou, de novo, de tudo que está em risco. Sim, estivemos muito mobilizados e as discussões eram quentíssimas todo dia o dia todo. Dava uma impressão de vitória agora ou futura, independente de qual lado você esteja. Estávamos todos conseguindo seguir em frente porque, obviamente, alguma coisa iria acontecer, e provavelmente, poderia ser muito boa para nós.

Não foi. E agora precisamos estar mais mobilizados, mais ativos, mais posicionados, precisamos saber dialogar, precisamos confrontar ideias ao mesmo tempo e precisamos, muito, mas muito mesmo, que a política pare um pouco as nossas vidas pelo menos por esse mês, para garantir que viveremos nos próximos quatro.

Sim, eu e meu amor somos contra Flávio e qualquer Bolsonaro por tudo que eles fazem e representam. Somos contra seus aliados transfóbicos. Somos contra a política de morte que tomou conta do país durante a pandemia. Somos contra golpes de estado. Somos contra a banalização e ridicularização de pautas que mudaram as nossas vidas e as das pessoas ao nosso redor. Somos contra entregar nosso país para um projeto de ódio.

E não me venha com falsas simetrias. Com isenções cheias de conversa e vazias de informações concretas. Você se importa com a vida das pessoas negras, e vota nele? Com a vida das pessoas LGBT, e vota nele? Com a vida das mulheres, e vota nele? Eu não consigo acreditar que você esteja bem informado ou bem intencionado. Sendo um ou outro, você se importaria em procurar com calma e atenção tudo o que já está posto contra ele, tudo que a internet e as ruas já mostraram por a+b, tudo que aconteceu enquanto você estava aí vivo no mesmo país que eu respirando e recebendo quase sempre as mesmas notícias?

Mas calma que esse recado hoje não é sobre você. É sobre quem, assim como nós aqui, também está em risco. Eu quero me casar um dia. Eu já posso me casar, parece. Parece porque é um direito que ainda não foi completamente firmado, que está acontecendo sob decisões do Supremo. E o já abertamente homofóbico Flávio Bolsonaro poderá mudar a composição do nosso Supremo. Você deixaria eu me casar ou prefere que o Flávio decida por mim?

Eu gosto de andar de mãos dadas com meu namorado. De beijá-lo, de fazer carinho. Eu deveria ter vergonha disso? Eu deveria me sentir ridicularizado? Eu deveria apanhar na rua por isso? Sim, eu posso denunciar ou processar alguém por homofobia. Mais uma vez, dependendo da decisão do Supremo. Eu quero uma lei que me dê segurança. Você acha que o Flávio, que já disse que não sou normal, que não teria orgulho de um filho como eu, que diz que não é obrigado a me aceitar, você acha que ele vai se importar se eu perder os dentes num soco inesperado num dia comum?

Tá, talvez eu esteja sendo catastrófico demais. Talvez nada disso tenha embasamento no mundo real. Talvez ele só seja muito barulhento, fale muito alto, não pense nas consequências do que fala ou não se importe tanto se isso me machuca mesmo. Você confiaria em alguém assim para governar o país?

Eu nem quero mais que você se importe com o Lula. Eu gosto dele, mas você não precisa gostar. Mas você realmente se importa comigo? Com o seu colega LGBT que você tanto adora? Com sua prima que saiu da casa dos pais para se casar agorinha com uma mulher linda e muito gentil? Com o seu neto que está para nascer e se for como eu você vai fazer o que, não achá-lo normal?

Mas sei lá, talvez sejam só quatro anos. Talvez eu esteja sendo alarmista. Talvez o Lula também não faria nada mesmo que todos os aliados dele nas outras esferas se articulem a favor das nossas vidas. Talvez eu só esteja querendo seu voto. Talvez eu só queira que você se importe comigo e com as pessoas LGBT em geral.

Mas fazer o que se você não se importa nem com os mortos da pandemia, seja com os que você velou ou com os que viu seu vizinho velar. Talvez você não se importa com as vítimas da violência policial dos governos de direita. “Bandido bom é bandido morto”, eles dizem. Procura aí a contagem de inocentes mortos. Já que você só se importa com esse lado da família de alguém, que poderia ser a sua. Não, né? Vocês são limpinhos, certinhos e isentos.

Deixam a violência para as mãos de outras pessoas. Mas as suas também estão sujas.

Ok, eu peguei pesado.

Voltemos para a programação normal.

Eu vou te mostrar um pouco de informação e diversão.

Eu vou compartilhar posts que te deixem confortável e tranquilo.

Eu não vou parar pra pensar no que acontece nos seus grupos de Whatsapp.

Eu não vou ter medo.

Vou confiar em quem está comigo e quer me ajudar a mudar o Brasil.

Vou confiar em quem você quiser ser depois de tudo isso.

Vou confiar que no seu silêncio ainda se esconde um coração.

E que se eu precisar chorar qualquer derrota de novo, que não seja alguma que precisou do seu voto para existir.

 
 
 

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