Coluna 8L 09/2026 - Dizer não a si mesmo
É uma bosta. Abrir mão de algo que a gente quer, seja o falso carrinho Hot Wheels da feirinha aos cinco anos ou aquela grande oportunidade de emprego que envolve custos demais aos trinta: É uma bosta.
É claro que tem muito mais fatores relacionados a estas escolhas aos trinta do que aos cinco. Porque, de fato, a gente não decide muita coisa aos cinco anos de idade e isso pode ser até um tanto refrescante se você tiver uma infância razoável. A gente é ensinado a ter culpa mesmo sobre o que não decide, mas quando sentimos culpa e somos os maiores responsáveis pelas nossas decisões: Dói pra caralho.
Mas assim, dizer não a si mesmo pode ser extremamente necessário. Muitas vezes inevitável. Algumas vezes, uma chance de conforto. Na maioria das vezes, um pouco de tudo ao mesmo tempo.
Mas é claro que antes de tomar a decisão, fica mais fácil ver os contras do que os prós. Estamos lutando contra nós mesmos. Durante a tomada de decisão, a cabeça fica dividida. O conflito se percebe. O Homem-Aranha apontando para o outro Homem-Aranha. E depois, ficamos caçando os prós. Ah, como aliviou. Nossa, realmente foi melhor não fazer aquilo. Se eu tivesse feito…
E aí vem o estrondoso “e se”, que traz a banda toda de “e se” para o desfile, com seus bumbos de rápidos vislumbres gloriosos e suas sinfonias de vidas inteiras modificadas pelo contraditório do decidido. Mas a gente tem que se manter firme, afinal, a hora de decidir já passou. O poder de decidir se foi. Só temos as consequências. O “como seria” não existe. Somos nós e o que podemos fazer a partir de agora. O ontem já passou.
Tem coisas que queremos tanto que dizer não a elas parece ser dizer não a nós mesmos. Às vezes, a realidade vai dar conta do seu não por você.
Escrevo este texto depois de tomar uma decisão difícil não só por mim, mas por mim e pelo meu amor. De ter que olhar nos olhos dele e explicar uma situação que eu não queria estar vivendo, mas que talvez precisássemos viver. E é difícil às vezes argumentar quando tudo parecia tão diferente, tão brilhoso, promissor. Quando parecia haver um caminho. Mas não há mais. E não estamos infelizes com isso. Mas precisamos passar por uma certa infelicidade para chegar até aqui.
Na nossa vida de quadrinistas, perrengues são inevitáveis. Não só para produzir, essa parte dominamos muito bem. Mas para vender. Para expor. Para ganhar algo real a partir do nosso trabalho que custa, mesmo que feito com muito amor. Só o amor não paga as contas. Ajuda, porque confiança e parceria são capazes de construir coisas que uma pessoa só talvez não consiga sozinha. Mas nós precisamos de mais. Temos projetos ambiciosos e arriscados. E às vezes precisamos também de menos.
Somos especialistas em sobrecarga. Estamos sempre trabalhando e sempre inventando novas formas de trabalhar. Não estamos sempre ganhando por isso. Infelizmente. E às vezes dizer um não é ganhar mais ainda. E nos contentarmos com a ideia de que o que temos é necessário, aguenta o tranco, resolve por enquanto, nos ajuda a nos manter.
Para além de valores financeiros, há alguns valores simbólicos envolvidos. Um certo pano de fundo emocional, mas muito conectado a tudo que já conquistamos até aqui e também ao que ainda queremos conquistar. Dizer não a uma validação grandiosa do seu trabalho, a um espaço que pode levá-lo a oportunidades infinitas, a uma troca sincera e carinhosa com pessoas que também trabalham e amam o que fazem nessa área, além de um contato direto com talvez o maior público que já tivemos ou algo parecido. Trava o coração. Faz querer dizer pro dinheiro: Ei, você consegue! Mas o dinheiro não trabalha com discursos motivacionais. Não desse jeito.
Tomamos a decisão. Não vamos mudá-la - nem temos como. Talvez a decisão tenha sido tomada antes de nós podermos nos decidir, as condições não estavam tão favoráveis quanto poderiam. Dizemos não a nós mesmos nesse assunto, e sim às condições contra as quais não poderíamos lutar.
Dizemos sim ao conforto de não lutar. À paz de poder investir em outros projetos e decisões onde podemos não só dizer sim como não depender de condições desfavoráveis. Dissemos um não, ganhamos um não da vida, mas não somos só isso que não queríamos. Temos uma multiplicidade de projetos e oportunidades só crescendo conosco e ao nosso redor. O amanhã continua surpreendente. Então porque a gente se sente assim?
A gente não se sente mais. Durou coisa de um dia ou dois. Tem resquícios mas nada realmente importante ou doloroso ficou. Tá apagado do calendário, cortado dos planos, e os novos planos são limpos, organizados e tranquilos. A criança de cinco anos não conseguiu seu Hot Wheels, fez birra até onde pôde, voltou pra casa e ganhou sorvete de sobremesa. O adulto de 30 anos não aceitou o emprego maravilhoso, se replanejou e juntou dinheiro no emprego onde já estava, conseguiu respirar mais e viver férias não só de seis em seis meses, mas até em alguns finais de semana.
Existem sim momentos e condições nas quais não poderemos ter esse poder de escolha todo. Onde não poderemos trocar um sonho por conforto, ou uma oportunidade maior por uma estabilidade diferente. Esses momentos são e serão frequentes. Mas a possibilidade de fazer as pazes consigo mesmo após precisar dizer não a algo que queria muito, a sabedoria de não sentir culpa por algo que não pode controlar, e de aproveitar o que vier mesmo que corte um ou outro sonho arriscado no meio do caminho: São coisas que vale a pena se viver. São aprendizados.
A maturidade de dizer não a si mesmo e ainda assim dizer sim.

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