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Coluna 8L 07/2026 - Lidar com o inesperado

  • 31 de jul.
  • 5 min de leitura

Como um planejador obcecado, que começa pensando o que vai fazer no dia e acaba perdendo horas decidindo o que vai fazer pelo menos nos próximos 365 dias, e já querendo deixar sementes para mais próximos três, seis anos, e de repente termina o dia cheio de ideias para 2050… É muito fácil ter meu castelinho de cartas derrubado. A fila de peças de dominó vê qualquer pequena brisa como o anúncio de uma catástrofe. Planejamentos, ordens, métodos e regras de organização me deixam especialmente fascinado e delirante. Mudança é algo que me irrita muito fácil, me tira do sério, bagunça tudo dentro de mim até que eu consiga me reordenar, respirar, e planejar tudo de novo.

Mas calma, eu não estou tremendo. Eu não vou ter um AVC. Não vou desmontar na sua frente. E nem estou realmente chateado ou chocado, é esperado que o inesperado aconteça. É só o meu processamento que é mais lento do que a velocidade com que as notícias mais repentinas atravessam a minha sala como os animais desesperados em Jumanji. O de 95, por favor.

E eu nem fico assim só por notícias ruins. Coisas boas me assustam muito. E se eu não conseguir aguentar? E se não for tão bom assim? E se eu tiver que mudar todas as coisinhas chatas que eu tinha planejado pra poder inserir na minha agenda essa coisa incrível que eu não sei onde colocar?

Eu não sei de onde veio tudo isso. Eu venho de uma família bem desorganizada. E em outros âmbitos da vida eu também sou caótico. Mas quando eu me isolei bastante socialmente em algum lugar ali na pandemia, eu fiquei obcecado em controlar os meus horários. Em planejar os meus dias. Em saber a hora que eu faço as coisas e a sequência de coisas a fazer. Comecei a dedicar vários momentos só para pensar o calendário. E sim, eu tenho um calendário planejado até 2050. Não para todas as coisas, eu não controlo todas as coisas. Mas para tudo que eu acho que consigo controlar. Acho.

É claro que isso é mais leve para coisas cotidianas. Sei o que tenho que fazer e vou fazendo. Mas quando o assunto é trabalho, eu tenho que saber tudo. E quando é um projeto pessoal e extremamente carregado de afeto como os quadrinhos que faço com meu amor… Eu só gosto de imaginar os futuros dos futuros e dar o meu melhor para que sejam perfeitos.

Não me entendam mal, mas meu namorado é um artista e eu sou um escritor. O meu trabalho na nossa brincadeira leva menos tempo. Eu levo tudo a sério, pesquiso, construo, converso, escrevo, reescrevo, monto rascunho, storyboard, edito, faço tudo que eu já consigo fazer por conta própria, pro meu anjinho poder ter todo o tempo e a liberdade que precisar pra desenhar, repensar, criar, e também pra maior parte da nossa produção artesanal já que o equipamento está na casa dele - e ele domina muito toda essa parte.

Então nessa distribuição desigual do recurso tempo, eu gosto de poder assumir mais tarefas, e gosto de ter a confiança do momo para planejar, conduzir, tomar decisões, sempre consultando ele, claro. Eu monto os modelos, ele traz as ideias, e eu vou reencaixando. Daí eu não preciso montar o lego infinito sozinho, tenho outra criançona comigo que consegue visualizar a figura completa enquanto eu vou encaixando as peças.

E isso é ótimo. É perfeito, me ajuda muito. Digo, quando eu planejo sozinho, mesmo que eu goste muito de planejar, me falta uma confiança, sabe? Em mim mesmo, nos meus planos, na minha capacidade. Então ter alguém que também confia em mim e que juntos a gente faz as coisas darem certo… É fenomenal. Mas às vezes até ele se assusta com a minha reação imediata a imprevistos.

Primeiro, eu ouço ou leio a notícia com uma cara séria, atenta, que não dá pra saber se vai dar uma bronca ou só travou na matrix. Eu só travei na matrix. Em seguida, dou uma respirada profunda enquanto os nós do meu cérebro vão desatando até formar o cabelo da Medusa, mas sou eu que fico petrificado. Daí eu abaixo a cabeça e tento olhar para o mais completo nada. Meus olhos ficam mais abertos do que se fossem olhos de cartoon. Então eu escolho uma direção para olhar, uma direção vaga, no alto, dos lados, nunca na frente, como se procurasse uma solução. Aí eu olho pro problema na minha frente. E abro o planejamento. Começo a digitar sem piscar os olhos, e fico fazendo perguntas que eu mesmo respondo, e aí eu começo a me encolher todinho para ficar pertinho do meu planejamento, ver mais nada… Então eu travo. Estico até alcançar uma postura tão retinha que minha fisioterapeuta teria orgulho. Olho para o mo e pergunto:

“Tá, o que que a gente faz com aquele negócio?”

Aí o mo ensaia que vai me perguntar algo e eu já respondo:

“Deixa, eu vou montar um modelo aqui e te mostro.”

Então eu fico um tempão alterando datas, mudando coisas de lugar, testando se cabe tudo, pensando se esqueci alguma coisa, tendo alguma ideia nova que eu teimo que vai encaixar, e quando eu termino de montar o calendário perfeito, completamente rígido mas que eu posso mudar todo de novo se precisar… Eu mostro pro mo e ele adora. E eu fico explicando tudo, cada parte, revisitando coisas que nem mudei até. E ele só adora. Agradece. Minha cabeça volta na quinta série quando eu fazia o trabalho em grupo sozinho porque todo mundo furou comigo, e no dia de apresentar ainda queriam reclamar mesmo eu levando a parte de cada um pra fingirem que tinham feito. E eu fico feliz pensando: Caraca, dá pra ser de outro jeito! É muito louco que a quinta série faz, sei lá, uns vinte anos? E eu ainda tenho medo de reviver ela sendo que nos últimos dois ou três anos, eu tenho alguém que realmente me apoia, faz o trabalho comigo, suporta minhas doidices e não me deixa fazer nada sozinho. É mais fácil ser obcecado quando tem alguém só sendo tranquilo, do meu lado, porque confia nisso que eu fico chamando de obsessão. Me faz me sentir habilidoso e capaz. Me ajuda muito a fazer dar certo. Que é meu objetivo, afinal, com tanto planejamento.

Então quando uma notícia inesperada vier e te deixar com vontade de parar o tempo para reorganizar os dias e horas e segundos e a vida inteira só para não sair do lugar até ter certeza de tudo que vai fazer e de que nada importante será afetado, e quase não couberem vírgulas no seu pensamento… Se dê umas reticências. Vai procurar alguém pra quem você pode surtar enquanto conta tudo, pensar sem medo de compartilhar, organizar sem medo de errar. E se não tiver ninguém, tenta ser esse alguém pra você mesmo. Qualquer coisa, só não tenha medo de ficar assim por um tempinho, se possível. Você não tá obcecado. Vai achar sua resposta. Até porque…



Você é criativo.

 
 
 

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