Coluna 8L 08/2026 - O poder das conexões sinceras
Atualizado: 27 de ago.
Este texto é um agradecimento sincero a todos que conhecemos e estiveram conosco neste semestre, que pode ter sido o mais estressante e trabalhoso desde que começamos a fazer quadrinhos. Vocês são demais!
Obrigado por nos provarem o quão bom pode ser ceder um pouco e se permitir proximidades e amizades. Somos dois introvertidos pela vida, e mesmo tendo certo traquejo social treinado, ainda temos muitas dificuldades em confiar nas pessoas, saber o que esperar delas, saber a nossa hora de entregar algo e também saber a nossa hora de parar.
Foi o semestre onde mais nos aventuramos online, depois de algumas decepções específicas com parte do nosso modelo de produção, que não nos faziam abandoná-lo pois eram bem localizadas, mas nos fizeram questioná-lo e ter de prová-lo para nós mesmos por conta própria. A gente praticamente faliu ano passado depois de duas grandes decepções com eventos, uma mega decepção com catarse, e um custo de vida que não estava se pagando. Ainda temos questões, dívidas, dificuldades, mas fizemos as pazes com grande parte do que nos estava quebrando, e isso foi possível não só por sermos fortes e termos molejo, mas por termos construído uma rede de apoio e confiança, às vezes sem nem perceber.
Recentemente estivemos num evento do qual não esperávamos muito, o Comic Market Brasil, e nos surpreendemos positivamente. Não com os problemas que já sabíamos que teríamos e que tentávamos muito contornar para poder participar tranquilamente. Mas com as pessoas que como nós estavam ali na Área dos Artistas, mostrando seu trabalho, fazendo amizades, construindo e revisitando laços, fazendo uma verdadeira cena de quadrinistas unidos aparecer, ter cor, ter voz, ter corpo e presença.
No começo do ano, víamos o modelo de autopublicação online e gratuita para nosso modo de produção como apenas marketing. Entramos numa comunidade de marketing para quadrinistas, numa comunidade de leitores de quadrinhos nacionais online, participamos de pequenas interações online e nos afundamos um pouco em discussões e diversões interessantes dentro dessa esfera. Ainda assim parecia apenas uma vida paralela em relação a vida que a gente realmente queria e quer, e se projeta para ter.
Dilemas muito específicos dessa enorme rede, que ainda em si é uma bolha perto de tudo que existe no quadrinho nacional, cujas várias bolhas nem sempre se misturam, se tornavam rotineiros e até um pouco incômodos quando às vezes a pouca experiência que construímos dentro de outras bolhas dava de cara com problemas que não podia entender nem abarcar. Publicar de graça sem esquema de monetização plenamente funcional para todos? Brigar por alcance e views e pagar por divulgação publicando de forma gratuita? Depender de influencers e de muitas vezes ter que ser um influencer para ter seu quadrinho lido? Eu não queria esse mundo. Eu vim do independente. Do quadrinho que você imprime por conta própria, vende olho no olho, tudo com as próprias mãos e sem ter que disputar demais por espaço com ninguém, apenas fazer um bom trabalho e saber comparecer.
Claro que não é um mundo acessível para todo mundo. Eventos envolvem um investimento inicial caro, não estão presentes em todas as cidades do Brasil, viajar é muito caro e difícil, e a gente está bem cansado de saber de tudo isso. A produção disponível online e gratuitamente permite que quadrinistas de uma cidade sem bibliotecas conheçam e leiam uma enorme amplitude de obras, troquem e passem a produzir suas próprias, mesmo que às vezes não haja nenhuma perspectiva maior de crescimento nisso, nem de construção de trabalho ou carreira. Temos exceções com alcance de milhões, mas para o tanto de obras que surgem dia após dia nesse cenário, é até estranho que a internet às vezes comemore o sucesso de um como se fosse o sucesso de todos.
E talvez seja para isso que se constroem comunidades, círculos de apoio mútuo, grupos de leitura e artistas que trocam com artistas. Não são comunidades perfeitas, assim como não existem eventos, catarses, editoras nem gráficas perfeitas de verdade. Mas diferente das pessoas que conhecemos num evento e só vemos um ou dois anos depois em outro, essas comunidades estão lá o tempo todo. Estão acontecendo, efervescendo, fomentando uns aos outros e também discutindo, reclamando, lidando com situações ruins e algumas estruturas péssimas. Mas é de fato uma cultura enorme e que não pode ser ignorada. E que mais que isso, para nós, apesar de vários problemas e críticas possíveis, se tornou uma nova casa.
As pessoas que fizeram nosso catarse deste ano chegar a 31% enquanto o do ano passado terminou em 5%. As pessoas que nos explicam problemas e dúvidas diversos que temos, que mostram sua produção de coração aberto e nos dão espaço para mostrar a nossa e conversar sobre. As pessoas que constroem vínculos sinceros a partir de brincadeirinhas, gostos parecidos, piadas em comum e rotinas parecidas. Pessoas com quem você não precisa ter um assunto pra resolver para chamar pra conversar. Pessoas que não têm círculos de amigos fechados e definidos e às vezes difíceis de entrar. Pessoas acessíveis, sinceras, valorosas e dedicadas ao que fazem. Artistas. Não os influencers ou bam-bam-bans que prometem soluções e um sucesso incrível se você puder pagar ou se submeter. Mas os artistas. As pessoas que produzem e entendem o que é produzir. As pessoas que fazem arte mesmo com toda dificuldade e estão dispostas a também fazer arte com você. Pessoas que desfazem um pouco a solidão que a gente sente quando não consegue algo, ou quando não tem com quem conversar sobre algo. Pessoas que se tornam amigos. Amigos cotidianos mesmo com distâncias geográficas. Um pouquinho do que eu e meu amor pudemos ser um pro outro ali quando queríamos fazer quadrinhos lá no começo e tivemos que descobrir como.
Foi maravilhoso conhecer muitos de vocês pessoalmente ali no Comic Market Brasil. Foi incrível perceber o carinho dos que não puderam ir, da forma como puderam entregar. Talvez não tenha sido nosso evento preferido, mas com certeza foi um evento marcante. Pelas pessoas. Pelos artistas. Pelas comunidades que vão além do nome de comunidade. As que se constroem não pelo nome, mas pelo convívio e real afeto entre seus membros. Os grupos de amigos. Grupos presentes e que não precisam se esforçar muito para estar presentes. Só o fazem. Estão acostumados a fazer.
Muito obrigado!
Até as próximas aventuras.

Comentários