top of page
Buscar

Coluna 8L 05/2026 - Oitavo Lucas, 32 anos, homem cis, bissexual, monogâmico e casado

  • há 4 horas
  • 8 min de leitura

Eu era apenas um bebê. Mentira, foi mais tarde. Mas eu era um explorador. Sempre fui muito curioso. Gostava de saber como tudo funcionava. Entender meu corpo. Imaginar o dos outros. Não de um jeito sexual. Pelo menos não ali naquela pouca idade. Mas tudo que tinha pele e movimento me parecia muito interessante, de longe. Eu não interagia muito.

Quando eu comecei a brincar junto com outras crianças, ser um pouco mais, quase nada, permissivo com abraços, e me divertir mais quando me levantavam e giravam e pulavam… Fui muito feliz. Eu já devia ter uns oito anos. E agora lá estava eu dançando nas festinhas de aniversário, andando de mão dada, vivendo muitas pequenas alegrias e afetos. Mas cotidianamente travado. Tinha algo no cotidiano que me desagradava. As pessoas eram rudes com mais frequência. E tinha o bullying. Nossa, como eu odiava o bullying. E ele nem tinha nome na época.

Para alguns, eu era muito comportado, muito certinho, e isso parecia meio ridículo. Para outros, eu era muito alegrinho, muito pra fora, muito menininha. Nossa, como isso me irritava. Fui me afastando dos garotos gradativamente. Preferia brincar de boneca debaixo de uma árvore do que correr na quadra só para que pudessem rir do meu jeito de correr. E olha que eu adorava correr. Mas nunca fui um dos mais rápidos. A não ser na queimada.

Eu não tinha força, mira ou destreza para acertar a bola. Mas eu escapava dela a ponto da aula de educação física sempre terminar com alguém tentando me queimar, e nunca conseguindo. Desviar era uma habilidade da qual eu me orgulhava. De que adiantava a força dos garotos que me ridicularizavam se nada de fato conseguiria me atingir? Ali eu era o mais rápido e o mais ágil. Eu devia ter uns doze anos.

Quando mudei de escola encontrei um ambiente assustador. Eu estava virando adolescente, mas parecia que todo mundo tinha virado antes de mim. Eu assistia Malhação, eu assistia Rebelde, eu achava que sabia como era a vida dos adolescentes mas poxa eu ainda era uma criança. Era divertido ver, não participar. Mas meus colegas estavam muito ansiosos em participar. E isso gerava uma pressão forte em mim.

Comecei a reparar em coisas que antes não reparava. O que havia debaixo das saias, porque a calça do meu amigo parecia tão cheia, porque a minha calça estava fazendo isso, coisas do tipo. Assustador, de verdade. Mas deveras compulsivo e interessante. Aos poucos eu passei a pensar demais nessas coisas. E a me tocar. E nossa, como eu gostava do meu corpinho. E gostava mais ainda de fechar os olhos e deixar a imaginação viajar por todas as pessoas que vi na rua, na escola, e o que diabos acontecia dentro de suas roupas com o jeito que se moviam. Eu meio que fiquei tarado, mas só dentro do banheiro ou do quarto.

Odiava quando algo ou alguém me obrigava a ultrapassar esses limites. Odiava ficar de pau duro em lugares cheios. Meu rosto parecia dizer “foi sem querer” mesmo que não me perguntassem nada. Eram os quinze ou dezesseis anos quando comecei a dar uns beijos e a ter namoradinha. Eu também estava prestes a largar a igreja, não porque ser certinho me cansava, eu era ótimo nisso. Mas porque ela falhou em me ajudar a lidar com o luto quando precisei. Daí ela começou a falhar comigo em muita coisa do que prometera.

Meus namoros eram muito inocentes. Mãos dadas mas tudo bem cauteloso, na hora certa porque dá choque e choquinhos incontroláveis poderiam me deixar disposto - e armado. Selinhos rápidos de olhos fechados porque se eu colocar a língua e não souber usar a língua pode ser que todo mundo perceba que eu me sentia uma farsa. É, eu me sentia uma farsa. Eu namorava as meninas que mais se pareciam com os meninos. Mas dos meninos eu tinha medo. E o que mais me alertou do que poderia ser esse sentimento de farsa foi um triângulo amoroso que assisti se desenrolar de longe na minha escola.

Esta garota e este garoto namoravam. Vamos chamá-los de Alta e Desenrolado. Sempre fui ótimo para acompanhar fofocas porque era como assistir novela fora da TV. Alta e Desenrolado pareciam ter um relacionamento ótimo, e mesmo assim todos desconfiavam dos dois. Porque Desenrolado tinha um amigo do qual não desgrudava. Vamos chamá-lo de Carinhoso. Os dois se abraçavam em público, andavam de mãos dadas em público, riam juntos em público e sem precisar ficar dando soquinhos e olhando pro alto pra desviar da timidez. Desenrolado e Carinhoso eram uma amizade que eu teria na infância, só que com todo o sabor esquisito e instigante que eu só passei a sentir na adolescência. E é claro que a Alta não gostava disso. Desenrolado não a beijava em público. Eles não andavam de mãos dadas. Mas quando as meninas perguntavam, Alta dizia que não gostava de grude. Sei.

Acontece que ela gostava muito de grude, e quando viu os dois se beijando de língua em algum canto da escola, gritou pra todo mundo. Todo mundo ficou sabendo. Terminou com ele expondo o motivo até para quem não perguntava. E mudou de escola chorando muito. Eu me importava com o sofrimento de Alta. Mas eu estava muito curioso sobre dois meninos que se beijavam e não era em um filme que só passa de madrugada, ou em alguma imagem que achei na internet mas parecia que eu não devia ter visto. Não era nada que a igreja poderia fazer alguma coisa. Eram dois meninos que eu conhecia, que eu convivia, tendo um afeto que eu não conseguia nem com as meninas: Eles se beijavam de língua!!!

Eu sempre soube o que eram gays. Me chamavam disso desde antes de eu saber ler. E eu sabia porque me chamavam. Eu sempre fui mais alegre, mais divertido, mais inteligente e mais cuidadoso do que aqueles meninos que sabiam chutar mas não sabiam ler. Sim, eu posso ser arrogante sobre isso. Mas eu sabia o que eram gays, de forma pejorativa ou proibida, como no caso de “Brokeback Mountain” que eu tive de ver de forma clandestina - o que me ensinou a ver muitos filmes clandestinos depois. Eu só não sabia o que eram gays de forma descolada e prazerosa como pareciam ser os dias de Desenrolado e Carinhoso longe do sofrimento e desprezo de Alta agora que iam e voltavam da escola sozinhos, juntinhos. Agora eu queria ser gay, descolado e prazeroso.

Não deu bom. Mudei de escola de novo e… Todo mundo era extremamente heterossexual. De um jeito leve, mas sempre apaixonados e perdidos de juras e loucuras por meninas lindas demais que nem olhavam para eles. Um bando de chatos. E as meninas eram muito legais, mas nossa, elas não deviam nada pra esses caras! Quando elas começavam a se interessar por algum menino do esporte, ou um pouco mais velho, e com certeza sempre mais bonito, eles agiam como se elas fossem pessoas horríveis por isso. Mas o que mais me irritava mesmo era que eu me interessava por eles. Só porque eram meus amigos, e na época para mim era muito fácil confundir. Porque eles não me olhavam? Porque não liam meus sinais?

Os únicos outros gays das escolas que estudei não interagiam muito bem comigo. Eles passavam por bullying, homofobia, situações constrangedoras, e eu também. Mas quando eu tentava interagir com eles, parecia que eu era um pouco demais. Eles estavam mais tímidos e travados do que eu. Eu nem sabia que isso era possível.

Mas eles também eram corajosos em outros sentidos. Acabavam expostos por ter dado em cima de algum menino, ou por terem dançado rebolando muito, qualquer coisa do tipo. Eu só sabia falar, estava desenvolvendo a fala. Aulas de redação pro vestibular me ajudaram a desenvolver algum dom pro debate, e algum gosto por estar certo.

A minha última aventura escolar foi o início de uma enorme nuvem de confusão que tomou conta da minha cabeça. Teve uma viagem, uma garota deu em cima de mim e eu disse que era assexual. Porque eu fiz isso? Hoje em dia sei que isso não é uma “resposta mais fácil” nem nada do tipo, é uma orientação real e cheia de nuances que não cabe como uma resposta de fuga. Mas na época eu não sabia se eu estava fugindo. Eu estava com medo, mas estava cansado. Eu gostava de meninos e meninas desde o começo dessa história. Mas nenhum deles gostava de mim, e quando gostava, eu fugia. Provavelmente o problema era eu.

Entrei na faculdade, e nada como um ambiente novo, cheio de pessoas que nunca te viram viver seus dilemas pessoais, para te libertar. E eu não sei se é por causa do QIA+ das LGBTs, ou se porque eu estava ali na bolhinha de artes e humanidades, mas eu conheci muita gente diferente de tudo que eu estava acostumado. Eu não era mais o único gay, e gays como Carinhoso e Desenrolado poderiam ser meus amigos, as meninas davam bronca nos meninos o tempo todo, e elas também namoravam entre elas. Eu tinha tudo para deixar de fugir. E deixei. Mas fui devagar.

Namorei e fiquei com mulheres. Homens. E tudo mais que há. Gostei de tudo, não me arrependo de nada. Transei pela primeira vez, pela segunda, pela terceira… Vivi pra caramba e não tenho vergonha disso. Vivi toda a sexualidade que estava dentro de mim esperando a vez, e gostei foi muito. Cometi alguns erros. Fiz algumas coisas ruins. Não me perdoo por isso, mas me resolvi. E depois de experimentar tudo que eu podia e ter certeza plena da minha bi/pansexualidade, eu fiquei com uma pulga atrás da orelha.

Gênero. Eu estava questionando demais o meu gênero. Eu estava experimentando coisas, trocando vivências, me questionando se todo o bullying e todas as coisas que me travavam com meu corpo e tudo que eu não entendia completamente até ali, será se tudo não tinha a ver com uma pergunta anterior, uma pergunta que eu nunca me fazia, uma pergunta que podia mudar tudo que eu sabia sobre mim? Seria eu uma mulher? E porque isso estava me pegando tanto? Eu não sabia. Porque eu seria uma mulher? Eu não sabia. De alguma forma, eu sabia que tinha que ser para saber. E talvez eu quisesse muito ser. Então sei lá, eu vivi processos e mudanças que… Passaram. Me machucaram um pouco. Outras pessoas que estiveram nessa comigo se encontraram, se descobriram, hoje vivem tudo que são. Eu só… Percebi que não era aquilo. Mas foi importante experimentar. Hoje sou muito mais solto em questões que me travavam. E tudo que vivi ali me foi muito importante para isso.

Pouco tempo depois, tive algumas questões de saúde para resolver que mudaram toda a minha vida também. Exaustão, crises complicadas, lutos e questões pessoais que me levaram a sucumbir. Veio a depressão, a terapia, os remédios, as tentativas de suicídio, a hospitalização, a cadeira de rodas, a fisioterapia, um certo isolamento e um nojo do meu próprio corpo. Eu não queria que ninguém mais olhasse o que me tornei. Me fechei pra sexo, desejo ou qualquer coisa do tipo. Eu realmente estava num lugar muito difícil.

Quando tentei voltar a me socializar, fui por interesses comuns. Escrevi sobre quadrinhos, e conheci meu homem, meu parceiro de quadrinhos, o amor da minha vida, meu casal criativo e onde posso saciar todos os meus desejos. Me encontrei como nunca havia me encontrado antes. Finalmente pude ser completo. E esse é quem sou hoje, Oitavo Lucas, 32 anos, homem cis, bissexual, monogâmico e casado com o que há de mais lindo e inspirador no universo, Martins Filho. Doido para me tornar pai de um Martins Neto.


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Coluna --MF 06/2026 - INVASÃO

eu sou, por que eu me vejo nos seus olhos. eu sou por que sozinho eu não sabia o que era ser. por que se eu fosse só, então, eu nada seria. e... tudo bem ser nada. mas só no mundo que não houvesse voc

 
 
 

Comentários


CORPOESIARTE

CNPJ 28.112.06/001-59

quadra 180 casa 07

itararé - teresina -

piauí -brasil

polÍTICa
de ENVIOS

envio em até 5 dias úteis;

entrega pelos correios;

encomendas fale conosco.

trocas e devoluções

condições de troca ou devolução estão definidas na descrição de cada produto.

fale conosco

qualquer dúvida, necessidade ou sugestão, entre em contato pelo link abaixo:

© 2026 por Martins Filho e Oitavo Lucas. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page