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Coluna 8L 04/2026 - O dia em que sentei ao lado do meu namorado fazendo quadrinhos

  • há 4 horas
  • 7 min de leitura

Tudo começa em outubro de 2023. Na verdade, muito antes. Ou talvez um pouco depois. Mas começa com dois garotos perdidos. Dois homens de trinta anos perdidos, vamos ser honestos. Pressões sociais, empregos merda, a aparente certeza de que tudo que gostam, almejam ou sonham está fadado a dar errado… E pessoas próximas que só corroboram isso. Discursos confusos, falas assustadoras, histórias de vida reais e pesadas que nos dizem: Parem. Mas tanto no amor quanto nos quadrinhos, nunca pedimos licença. Essa história começa onde nos conhecemos.

Houve um eclipse em outubro de 2023. Um real, intenso, que todo mundo falou sobre pelo menos no dia, o céu ficou bem roxo e apesar da visibilidade não ser tudo que os jornais prometiam, foi um tanto transformador, pelo menos para nós. Eu estava vindo de um tanto mais que cinco anos parado, algumas vezes literalmente paralisado, andando menos do que gostaria, nunca saindo e quase sempre sozinho e com medo. Meu homem ainda não era meu, ele também estava numa situação difícil. Um tanto mais que cinco anos preso numa relação distante e confusa, um certo tempo fugindo de um trabalho que o sugava, mas sempre testando experimentos e projetos pessoais… Os quais ninguém de fato incentivava. E veio o eclipse.

Eu estava na terrinha onde nasci, tomando um banho de rio como se nada mais importasse, nem meu corpo paralisado, disforme, desconfortável… Me livrei de tudo isso pra entrar na água e quando saí dela, saí melhor. Olhei-me no espelho e decidi tentar pelo menos aproveitar a vida. Fazer algo por mim. Já estava tentando desde o ano anterior, com calma, após a última das maiores crises que já tive na vida. Morri sete vezes e agora era hora de viver, eu acho. Eu ia sair de casa depois de muito tempo e não era para o comércio da esquina, era para o maior evento de quadrinhos que eu já pude conhecer. Com a minha mãe a tiracolo, claro. Outra cidade, um local enorme e lotado, muita responsabilidade e gastos para alguém que mal saia do quarto a anos. Eu estava me preparando… Mas nada me prepararia para o tanto que aquela experiência seria transformadora.

A quilômetros e quilômetros de mim, meu amor olhava para o mesmo céu roxo que me viu no rio, e fazia um pedido. Ao lado daquilo que o travava, ao redor de algo em que ele estava a se potencializar, ele pediu para ser amado o tanto quanto queria amar. E eu cheguei.

Nos conhecemos na internet pouco antes ou pouco depois do eclipse, mas as conversas esquentaram depois daquele dia. Começaram com dois meninos sem rosto, um num perfil secreto e outro num perfil ao mesmo tempo público e anônimo. Não foi nada obscuro nem esquisito, mas eu começava a postar sobre quadrinhos que lia e meu homem postava artes incríveis que fazia fora de seu perfil pessoal. Nenhum dos dois havia se visto ainda. Quando inventei de começar a escrever histórias e outros tipos de escrita para além de só falar do que gosto. E numa guinada de coragem e um pouco de ousadia, li um texto em vídeo, que apaguei rapidamente, uma janela de tempo pequena o bastante para que o amor da minha vida visse e me pedisse por mais. Nada premeditado. Só aconteceu.

E desse pedido vieram outros pedidos, da minha parte, da dele, e então comecei a escrever um roteiro. Eu conheci um homem lindo (que nunca havia visto), desimpedido (até onde eu poderia enxergar) e sempre disponível para conversar comigo. Não como se fôssemos desocupados, não era isso. Mas estávamos muito interessados um no outro. Em nos conhecermos, convivermos, trabalharmos juntos. Era um fascínio gigante. Ainda é. E o roteiro que escrevi nem foi nosso primeiro gibi. Ele disse que precisava melhorar muito antes disso. Ele já era perfeito. Mas ainda assim conseguiu melhorar muito. É surpreendente o que esses dois quase três anos de produção fizeram com a gente. Com os dois.

E assim seguimos fazendo quadrinhos, trocando beijinhos, cenas censuradas, mãos dadas a céu aberto, histórias do coração, fofocas das boas, eventos e viagens como se tudo fosse um sonho glamouroso… Porque pra gente é. Ainda não sabemos como damos as caras e os poucos recursos que temos para estar aí na vida o tempo todo tentando ser alguma coisa e lançar coisinhas importantes para nós e, quem sabe, para os outros. É sempre surpreendente quando alguém fica chocado que trabalhamos com isso, ou com o nosso ritmo de trabalho, as dificuldades que passamos e as obras que mesmo assim insistimos em criar. Surpreendente porque para nós isso se tornou normal. Como meu amor sempre diz, ou como eu disse pra ele, ou a gente se diz o tempo todo: A felicidade virou cotidiana, e o cotidiano virou felicidade. E tem os perrengues no meio. Não são poucos.

Ainda não moramos juntos. Outra coisa que choca as pessoas. Me chocava também. Já o vi a bastante tempo, lá nos primeiros meses, e nossa senhora, que gostoso! Mas é, não dá pra morar junto ainda com o dinheiro que podemos levantar no momento. Tem muitas outras questões e prioridades no meio do caminho de se construir uma carreira e uma real segurança para podermos morar juntos. Parece tão fácil nos vendo viajando e tudo mais, né? É essencial pra gente, ou você vai me dizer que nunca guardou uma grana pra um cineminha com alguém que ama? Senão, vale a pena.

Agora, imagina: Como fazemos nossos quadrinhos? Como namoramos? Como colocamos um ao outro em nossas rotinas diárias, nossos lembretes fofinhos, para além de mensagens simples ou textões complexos? São dois mil quilômetros de distância geográfica. E nós atravessamos eles, todo dia, simbolicamente, pelo espaço e pelo tempo, por reuniões online, vídeo-chamadas, memes, leituras sincrônicas, fotinhas e vídeos, um pouco de tudo e sempre alguma inovação. As partes mais românticas e picantes talvez não caibam a vocês saberem, mas as partes desse nosso hobby que nos uniu primeiramente e se tornou, de certa forma, nossa profissão, podem interessá-los.

Eu majoritariamente escrevo, meu amor majoritariamente desenha. Tomamos todas as decisões criativas juntos e dividimos todas as outras tarefas dentro e ao redor da produção. Somos canivetes suíços, cada um do seu próprio lado da operação, nos olhando, observando, ouvindo música e combinando o presente e o futuro dos nossos lindos gibis. Temos planos até 2050 e em seguida. Planos concretos, espalhados para que possamos atingi-los, e sem contar com o que foge do nosso controle. Isto, quando acontecer, será bem vindo. A gente se adapta. Tem sido assim desde o começo. Mas gostamos de saber que temos a certeza de contar com o sempre.

Todos os dias fazemos um pouquinho de quadrinhos juntos. Através de telas, com o apoio de ferramentas… Mesmo priorizando meios tradicionais, ainda assim dependendo de meios digitais. Quando nos encontramos corpo a corpo, mesma respiração, temos outras prioridades como eventos, trabalho e, sinceramente, uma vontade e uma energia enorme de nos curtirmos e namorarmos como se não houvesse amanhã. Como se o amanhã fosse apenas outro dia para fazermos tudo isso, e fosse ótimo assim. Realmente seria. Será.

Mas nessa última vez que nos reunimos pra dividir o mesmo pequeno conjunto de ar, algo diferente aconteceu. Fizemos um quadrinho e planejamos muitos outros ali, mão com mão, um comenta o do outro sem nenhuma falha na chamada ou ruído. Porque estávamos bem ali trocando papéis, dividindo lápis, experimentando algo que talvez só uma vidinha de casado poderá nos dar por completo e de fato. Estávamos vivendo toda a nossa parceria criativa ao máximo, temperada com nosso amor doce e carinhoso, acalentando nossos corpos com o cheirinho que se combinava dos nossos próprios cheiros. Eu estava olhando a fluidez dele pelas folhas, e ele admirando minha escrita rápida e cheia de contornos ao vivo. Sem imaginar uma parte que a câmera não pega, ou que o microfone não capta. Se ele quisesse ver meu tique nervoso do pé, ele via. Se eu quisesse ver os pelos do braço dele se arrepiando quando focava muito, eu via.

Foi muito especial dividirmos e trocarmos energia criativa ali, naquele ritmo, naquele tempo. O tempo que construímos juntos em outros meios e formatos, mas que agora tínhamos ali só para nós, perfeito e aperfeiçoado, comprovando firmemente o que já sabíamos: Nascemos para isso. Nascemos um para o outro. Nosso encontro é de fato um momento poderoso demais nas nossas vidas. E a transformação que as nossas obras podem ou não trazer não é o que determina isso. O que torna nossa união tão forte é que a construímos em meio a pedras, gravetos, insetos, terra e a vida acontecendo. Mas como cachoeira, jorramos do inesperado. E seguimos jorrando e fluindo e fazendo poças e outras cachoeiras, tudo ali, na força e na velocidade dessa união que sempre cresce e nunca para.

A força imparável encontrou o objeto inamovível. Nossa força de vontade encontrou o nosso amor. Eu vivo dizendo nos eventos, para todo mundo que pergunta, que demoramos trinta anos para nos encontrarmos e encorajarmos, mas que percebemos que o que encontramos um no outro poderíamos dar a nós mesmos: Todos nós podemos nos encorajar e persistir, ser quem nós mesmos precisamos. Mas está sendo muito bom ter alguém tão cheiroso e formoso do meu lado fazendo histórias que sonhamos desde pequenos até aqui. Histórias que vivemos e histórias que imaginamos.

Se você tem alguém com quem dividir sua vontade de fazer arte e contar histórias, com ou sem romance no meio, aproveite. A autossuficiência é muito importante. Mas a colaboração e a troca são inesquecíveis. Faça arte com quem é especial pra você, faça arte pra quem é especial pra você, faça arte com quem também quer fazer arte ou dá um puxão de orelha em quem não quer e chama pra tentar. Espero que tenha bons momentos.

Esse é o seu dever de casa de hoje.


 
 
 

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