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Coluna 8L 03/2026 - Afinal, o que estou esperando desses números?

  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Eu não odeio as redes sociais, no todo. Odeio em geral. E não é porque meu alcance é baixo ou meus posts não hitam. No momento em que hitassem, viria a dificuldade de manter ou replicar essa métrica. Eu não odeio as redes sociais porque as coisas não costumam dar certo pra mim aqui, não é isso. Eu odeio a estrutura de dependência de repetições e adequações ao que é feito que nos obriga a enlatar novas ideias com o áudio do momento ou o formato de três a dez segundos onde não cabe nada substancial de fato. Eu odeio como estamos todos aqui fazendo as mesmas coisas e esperando os mesmos resultados, os resultados que só alguns terão. E talvez esses alguns sejam muito bons mesmo. Provavelmente os melhores. Mas será que eles precisam ser artistas, editores de vídeo, roteiristas, máquinas de memes, estrelas da dublagem, donos de câmeras perfeitas e completamente atentos às grandes novidades, tudo em uma pessoa só? Este texto não é sobre a profissionalização das redes sociais. É sobre a adição não-remunerada da função de social media a todas as profissões em geral. E como isso afeta a nós que sempre recebemos pouco: Os escritores, os artistas, os quadrinistas.


Meus colegas de profissão não dormem. Falam de ansiedade e depressão como quem ri disso, mas não conseguem disfarçar os sinais de estafa. Muitos parecem sempre animados e sorridentes, quando viram para o lado desabafam suas dores. Costas acabadas, mãos doloridas, corpos travando de tanto desenhar, imprimir, encadernar, empacotar, vender, ajustar redes, sites, plataformas de quadrinhos, pagar programas de arte digital, cursos e mais estudos, lidar com clientes confusos e mais que isso: Ainda ter que trabalhar em outros empregos para conseguir sustentar essa vida que “escolheu”. Ninguém escolheu ser fudido. É um mundo que escolhe nos fuder todo santo dia.


Que a arte não é valorizada, qualquer discurso metido a intelectual pode te falar. E não estará mentindo. A nossa sociedade só valoriza artistas quando já estão famosos ou quando estão mortos. O caminho até o reconhecimento não existe. Não é fácil de mapear. Ninguém sabe como chegar lá. Peça conselhos a outros quadrinistas e eles dirão: Seu trabalho é muito bom, continue. Só vai e faz. Eles chegaram lá e não fazem ideia de como. Como poderíamos fazer?


Um médico sabe o estudo que precisa fazer para se especializar em sua área, os conteúdos que caem nos concursos para trabalhar no serviço público caso queira, como funcionam os processos seletivos de clínicas particulares e até como abrir seu próprio consultório. Pergunte a um artista se ele sabe como contatar editoras, conseguir clientes de ilustração, criar um portfólio que funcione, vender online, concorrer a prêmios, contratar colegas para um projeto… As respostas serão vagas e bem abertas, diferentes para cada um, dicas que você não sabe se aplicam ao seu projeto, informações que parecem incompletas ou nada garantidas… Porque ninguém sabe de fato o que fez seu projeto passar em um edital de cultura, ou porque passamos ou não em eventos de quadrinhos, ou até mesmo como viralizar um catarse pelas redes sociais se você já não tiver números absurdos nas suas redes de início.


Devemos esperar crescer nas redes sociais para ganhar dinheiro? Como se o que fazemos já não fosse em si um trabalho? Por quanto tempo um artista é obrigado a trabalhar por visibilidade até poder viver do seu próprio trabalho? Quantas ilustrações públicas e gratuitas até conseguir um cliente que pague por um serviço específico? Quantos capítulos que exigem semanas de trabalho publicados em plataformas de quadrinho online até alguém realmente querer pegar seu gibi físico em mãos? É uma questão de quantidade ou qualidade? E que qualidade subjetiva é essa? Se eu trabalhasse em uma obra, seria remunerado pelo tempo de trabalho. Se algo desse muito errado na obra, eu poderia ser demitido. Mas eu não teria que devolver meu dinheiro, a não ser que eu tenha provocado algum erro muito absurdo a nível de virar uma briga jurídica. Porque artistas só recebem pela obra pronta e pior, só se gostarem dessa obra final, de forma subjetiva e aleatória?


Somos nossos próprios patrões. Tomamos as decisões dos nossos empreendimentos. Não tem ninguém me obrigando a escrever este texto, a lançar meus gibis, a divulgá-los e querer que sejam lidos, eu e meu Martins somos completamente autônomos nesse sentido, somos um casal criativo de quadrinistas independentes. Mas não somos humanos independentes de direitos trabalhistas, estrutura de trabalho, um cotidiano e uma vida saudável, folgas que não sejam apenas dias para trabalhar em outras coisas… Somos humanos. Vender a produção de suas próprias mãos, aquela que ninguém pediu para você fazer, mas que de alguma forma pode chegar a tocar as outras pessoas… Pode ser bem frustrante até dar certo. E o que é dar certo?


Já fomos selecionados para vários eventos de quadrinhos. Já tivemos um curta-metragem aprovado em um edital de cultura. Lançamos um número bem grande de gibis físicos que nós mesmos escrevemos, desenhamos, editamos, imprimimos, encadernamos e vendemos sem nenhum auxílio para isso além do carinho e da paciência das nossas famílias. Temos leitores online, ideias para crescimento e um trabalho bem elogiado por quem se dá a chance de conhecer. Mas isso ainda não é sucesso. Não para nós. Precisamos de mais. E não somos os únicos. Os artistas que ficam felizes por uma leitura, por um elogio, por um abraço ou presente… Eu fico feliz por eles. Mas isso para nós é um trabalho. É nisso que escolhemos crescer e com isso que almejamos, quem sabe um dia, pagar nossas contas e viver juntos.


As redes sociais se colocam como o meio mais fácil de conseguirmos alcançar as pessoas e fazer nosso funil de vendas até alcançarmos tudo isso. Nos dar credibilidade, alcance, nos tornar interessantes para quem não nos conhece, nos mostrar como uma iniciativa que vale o investimento de terceiros e pode surpreendê-los com mais rendimento. Mas se fazer arte às vezes só é pago com visualizações, passar horas transformando essa arte em produtos para suas redes sociais só é pago com curtidas e compartilhamentos. Não há real perspectiva de crescimento nas redes. Existem macetes e existe quem os siga e cresça aos poucos, quem os siga e nada funcione. E quem os segue mas se surpreende com um boom aleatório de engajamento em algum conteúdo inesperado, ou sem nenhuma causa específica que explique tudo.


Assim como psicólogos que escrevem textos gigantes para as redes sobre temas diversos para ver se angariam clientes, jornalistas desempregados que começam blogs como forma de mostrar o que escrevem e colocar em algum currículo que um dia possa ser visto, professores que abrem cursos online para complemento de renda e precisam mostrar semanalmente que eles existem pois só existir não basta, estou aqui escrevendo este texto que não vai ser lido para ser visto. Fazendo gibis que não vão alcançar todo o público leitor que poderiam, para ser visto. Vendendo nossos gibis com sorrisos em eventos caros pros quais viajamos o Brasil inteiro, para ser visto. Ser visto para algum dia ganhar dinheiro.


É lógico que eu odeio as redes sociais. Eu já trabalhava de graça antes delas. Jogue uma bigorna na cabeça do Coiote e me diga se o dobro de esmagado não é muito fudido. Só que com ao mesmo tempo: Todo mundo e ninguém vendo.


Força, quadrinistas.


 
 
 

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