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Coluna 8L 02/2026 - De onde vem a inspiração?

  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

Não, não é lendo e aplicando dez dicas de como ser um bom escritor que você vai de fato criar algo. Não é copiando desenhos que se chega a algo novo. E não há nada de mal em fazer algo repetido. Nada de genioso em fazer algo novo. Mas inspiração não se busca. Inspiração se observa. A matéria prima de toda e qualquer arte é simplesmente a percepção.


Um tanto generalista da minha parte, eu sei. Mas partindo de um exemplo pessoal, vindo da minha vivência nada exemplar, posso afirmar que ler muito pode ter até me dado entendimento de como algumas coisas funcionam no mundo real e em mundos fictícios. A ficção tem regras muito repetidas espalhadas por toda história, mas nenhuma delas é universal.


Poderia até dizer que sou viajado e bem informado… Mas isso talvez seja um exagero. Eu estou começando a viajar mais agora, e meu acesso à informação é basicamente o mesmo que o da maioria das pessoas: TV e internet. Existem filtros sociais e bolhas específicas que podem ter me levado mais para um lado que para outro, mas seria ingênuo da minha parte achar que quem pensa diferente de mim pode ser por falta de informação. Não em todo caso.


Não acredito em gosto refinado. Sou bagaceira mesmo. Não dou menos valor ao funk do que ao Gilberto Gil. Nenhum filme clássico vai apagar o apego que desenvolvi por High School Musical. Nada disso me faz melhor ou pior, só diferente. E estamos quase chegando na questão da inspiração.


Na base mais profunda do que define toda e qualquer coisa, talvez sejamos todos isto: Coisa. Mas que bom que somos mais que isso. Antes de nascer a gente já ganha nome, cidade, família, classe social… E tudo isso pode mudar com o tempo, e seremos, camada sobre camada, uma pessoa muito parecida com alguém, muito diferente de outros, e completamente igual somente a si mesma.


Não importa quantos vídeos repetidos de gatos você veja, quantos comportamentos parecem se repetir, o quanto a aparência deles parece ser simples de desvendar… Você provavelmente consegue discernir e definir pequenas diferenças entre eles, que vão formando grupos e pressuposições e novos conhecimentos até que: Cada gato vira um gato, com um nome, uma cara, um cheiro e um jeito diferente de miar.


“Isso é viver… É aprender…” Pensar, conhecer, falar, observar, ouvir, cheirar, explicar, deduzir, induzir, agir, definir, contrariar: Verbos!!! Estamos inspirando e expirando desde o momento em que viemos ao mundo. E mesmo sem romantizar tudo isso, não podemos negar que inspiração não falta.


Como você cria um cachorro inseguro sobre a universidade? Eu estava inseguro, e tinha um cachorro. E essa sobre uma menina cega, você nem é cego! Pesquisa e percepção. Vontade de contar. Informações aleatórias que se juntam e precisam formar algo. Assim como criar não é repetir e imitar, também não é exatamente partir do que não existe.


Oh, mas de que me adianta a ideia de um quadrinho em aquarela se eu não sei pintar em aquarela? Procure o aprendizado, procure um amigo, procure materiais baratos, esteja aberto, mas: Não diga que te falta inspiração.


Se você sentar agora mesmo com o seu caderno para escrever um pequeno diário, sem medo do erro e com a tranquilidade de alguém que poderia escrever qualquer coisa: Você pode jogar a folha no lixo, mas os pensamentos e sentimentos que você elaborou ali, mesmo os mais banais, vão reverberar por você e se transformar dia após dia. Porque mesmo sem escrever isso aconteceria.


É claro que desenho, música, cinema, fotografia e outras artes podem exigir muito mais técnica já de início do que o simples ato de tentar. E mesmo assim todas começam da vontade e do experimento.


Talvez a inspiração venha simplesmente de você ser alguém vivo, com referenciais acumulados até sem perceber, num mundo cheio de informação que chega até você te interessando ou não; e talvez tudo na sua cabeça ou na sua história ou nas suas ideias tenha algum valor. E o livro de como ser um escritor ou o curso de anatomia para desenho não vão te ensinar a ser você. Você tem que ser você antes, durante e depois deles. Tem que se descobrir, se estiver muito difícil.


Copiar, se regrar, criar rotinas, hábitos, formas, imitar até dizer que está igualzinho ou formatar tudo que faz para caber no que parece esteticamente correto: Nada errado com isso. Só não esquece que o erro diz mais sobre você do que a imitação. Que o aprendizado não vale só para ser replicado. Que a mesma comida com os mesmos ingredientes ainda tem gosto diferente se feita por duas pessoas diferentes.


Se inspire no que há ao seu redor. Expire o que só existe através de você.


 
 
 

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