Coluna 8L 01/2026 - Planejamento a longo prazo, organização de ideias e mudanças de planos
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Trabalhar com arte e escrita em geral não é uma estradinha de tijolos amarelos onde todos damos os braços, pulamos e cantamos juntos. As coisas podem ser um tanto mais caras e menos gratificantes do que parecem de início. Não me entenda mal: Ainda defendemos a ideia de que todos podem fazer arte e que a arte não precisa ser algo caro, inacessível e endeusado. Mas há muitos fatores que fogem do nosso controle. E talvez construir uma carreira envolva lidar com estes fatores.
Me lembro do jovem Tinszinho e do jovem Luquinha, suas vontades e impressões sobre o que faziam. Crianças e adolescentes são incríveis em sua atitude, crença e vontade de potência. No mesmo lugar em que há uma ingenuidade de achar que vai ser descoberto por sua criatividade e tudo vai acontecer, também existe um entusiasmo tão grande a ponto de dar vida a tudo que cria sem medo ou receio de custos e barreiras que ainda não se conhece. É achar que está desenhando o próximo grande mangá da década ou escrevendo o livro inesquecível que estará nas vitrines de todas as livrarias.
Esse entusiasmo não pode morrer, mas essa ingenuidade precisa ser trabalhada.
Uma das primeiras coisas que aprendemos, eu e Tins, ao nos reunirmos para fazermos quadrinhos foi: Ideias não são trabalho. Artes conceituais soltas demais, sinopses com palavras bonitas… Não servem para apresentar o que ainda não existe. São o começo, mas não são material concreto. Nossa primeira inscrição para evento, já ambiciosa, para a CCXP, foi toda feita com ideias, capas imaginárias e sinopses de coisas que ainda não havíamos criado. Foi um belo jeito de dizer que não existíamos, ainda não sabíamos quando iríamos existir, mas já queríamos a maior vitrine do quadrinho nacional de olho na gente. Ingênuo.
Ainda assim, passamos em outro evento com quase o mesmo material, só que mais polido. Foi nosso primeiro evento, a Imagineland de 2024, e demos o nosso melhor. Fomos muito bem. Mesmo passando com somente ideias, esse impulso foi importante para produzirmos e aprendermos a produzir como loucos: Quatro lançamentos de uma vez, um portfólio com mais de trinta prints, chaveiros de crochê e tudo improvisado e produzido por nós, da forma mais barata que conseguimos, como fazemos até hoje.
Mas ter vendido quase tudo que levamos ainda não nos tornava tão grande coisa quanto parecia. Ainda temos muita dificuldade com nossa loja online e até com este clube de assinatura mesmo. Mesmo assim, temos grande facilidade em passar em eventos e nos planejar para eles, com um orçamento baixíssimo e muita centralização de produção. Viajar faz parte do nosso planejamento e produção, e também é essencial para o nosso amor a dois mil quilômetros de distância geográfica.
E só essas viagens já estão muito fora do orçamento de muitos quadrinistas, como percebemos ao ver a sempre crescente onda de publicação online e gratuita - da qual até tentamos participar -, mas que também está cheia de projetos abandonados ou deixados em segundo, terceiro, quarto plano. A verdade é que ninguém ensina o caminho, porque não tem um caminho só. Tem que viver pra descobrir, e pra viver tem que ser ousado, mas não pode ser ingênuo.
Nosso site e redes sociais são impecavelmente planejados, com todas as dicas que grandões das redes e do e-commerce nos ensinam a aplicar, só que dentro da nossa realidade. Não podemos, por exemplo, viver de produzir vídeos ou ter os melhores equipamentos para isso. Estamos investindo em equipamentos para fazer, imprimir e encadernar mais quadrinhos, que é o que realmente nos dá dinheiro e não só likes, e também é o que escolhemos fazer. As redes sociais são só uma vitrine. E mesmo pensando tudo com calma e planejamento, temos um engajamento risível de tão pequeno. Existem muitos quadrinistas com grande engajamento e mesmo assim com baixo número de apoios em campanhas de financiamento, mas que conseguem se financiar por um público menor e mais fiel. O problema é que pra conseguir ter 35 apoios grandes, eles partem de um lugar de 3 mil seguidores para cima, com um engajamento regular de 100 a 300 seguidores. São números cruéis e ainda assim muito difíceis de alcançar, principalmente com trabalho autoral e independente onde seu único divulgador é você.
Por toda essa realidade nua e crua tão difícil de desenhar e admitir, planejamentos a longo prazo podem ser importantes e motivadores para não deixar a peteca cair, mas esses planos precisam ser muito abertos e fluidos para tudo que pode acontecer no caminho. E isso quer dizer tudo de ruim e tudo de bom também, pois mesmo com todos estes números alarmantes ainda conseguimos ser bem sucedidos dentro do que planejamos e podemos, e manter nossa operação com a base e apoio que conseguimos.
Temos planejado já três fases de Eva com abertura para mais, anos comemorativos para nossos quadrinhos queridos, um calendário de posts temáticos e uma organização semanal de posts regulares, inscrições e lançamentos para eventos além de atenção aos nossos eventos preferidos e de maior retorno. Tudo isso com base em aprendizado, mas tudo isso podendo mudar também. E admitindo que não podemos planejar ainda coisas como contrato com editora, prêmios de grande reconhecimento e edições mais caras e de luxo. Não onde estamos, não com o que já sabemos. Mas nos programamos para continuar fazendo e aprendendo.
Grande parte do futuro, provavelmente a maior parte, foge do nosso controle. Até no presente vamos lidar com coisas além do que podemos planejar e executar por nós mesmos. Às vezes questões de saúde, às vezes um trabalho alternativo para complementar renda… Nosso tempo não é sagrado, nossas ideias não são imutáveis, e não precisamos nos apegar a tudo ou sofrer por alguma mudança.
Já que dei a sorte de trabalhar com um amor pra vida toda, sei que todas essas ideias podem voltar, mudar, se realinhar, que novas ideias surgirão e que nenhum trabalho é o trabalho da minha vida. Todos são.
Você não precisa encontrar o amor da sua vida para saber disso. Apenas se lembre que amanhã é só amanhã, que o ontem sempre pode ser revisitado e o hoje não é o instante final. Começar é fácil, continuar é o desafio, e continuar não precisa ser repetir. Mudar é parte.
Não se cobre mas não se subestime.
Eu falei que não era um texto de coach. Mas se você quiser mais dicas reais de planejamento que não envolvem programas pagos e planilhas impossíveis de mexer, pode chamar que vamos construindo. Obrigado por ler até aqui!

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